Contos do Fachini

Valdir Fachini
Compositor  - Escritor
valdirfachini53@gmail.com

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17/08/2017

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Cadê a égua do seu Tonico?


Ho mãe, hoje é quarta-feira ,hoje é dia do seu Tonico vir aqui em casa procurar a égua dele, não é?

É sim meu filho, já pega a viola do pai e deixa no jeito.

Dito e feito, lá pelas dez e pouco chegava o seu Tonico(Antônio Ferreira da Costa,se bem me lembro, era esse o seu nome)vinha ele, limpando o suor do rosto com a manga da camisa, com um pedaço de corda na mão, esbravejando e chutando pedra e toco.Disgramada de égua, não tem um dia que ela não foge, os meninos não viram ela passar por aqui não? Essa pernada me deu uma sede, comadre Durvalina ..me arruma um copo d´água?

Antes dele terminar de gritar lá do portão, a mãe já vinha com a água, ela já conhecia o costume do seu Tonico(Antônio Clementino da Silva, se bem me lembro, era esse o nome dele).

Então ele sentava na varanda, pedia a viola do pai e começava a cantar e tocar. De viola até que ele manjava, mas cantando, era uma negação.

Enquanto o som da viola e a voz do seu Tonico(Antônio Belarmino de Oliveira, se bem me lembro,era assim que ele se chamava)se espalhava pelo  quintal,o cheiro da costela com mandioca da mãe, saía da cozinha, vinha fazendo caracol, inundava a varanda e penetrava nas nossas narinas.

Então a mãe convidava seu Tonico( Antônio Vicente Correia, se bem me lembro,ele foi batizado assim)pra almoçar, ele topava.

Na quinta-feira a égua fugia lá pros lados do sítio do padrinho Venceslau, nesse dia ,a madrinha fazia frango com quiabo, a água já estava fresquinha, a viola afinada e as cadeiras na varanda.

Depois de comer uma pratada de arroz com feijão,uma coxa.uma asa e um pé do frango e cantar a moda da mula preta....eu tenho uma mula preta, com sete palmos de altura...Raul Torres, seu Tonico (Antônio José de Lima )agradecia e voltava a campear a égua.

Cada dia da semana, a égua fugia pra uma banda, no domingo ela fugia na hora do almoço e na hora da janta.

A vizinhança toda sabia que a égua nunca fugia, mas ninguém se importava, porquê seu Tonico tinha uma alma boa.

O pai dizia que    ele era um anjo que Deus mandou pra tomar conta da gente.

Um dia, meu irmão mais velho(era uma quarta )ficou escondido perto da casa do seu Tonico,(Antônio Barbosa ), quando o fila-boia saiu, o mano pegou a égua e a levou pra nossa casa, quando seu Antônio chegou perguntando pelo animal, trouxe ela amarrada na corda , o homem ficou sem graça, agradeceu e foi embora, nem sede sentiu.

Mas a mãe, com aquele seu imenso coração, lá da porta chamou...volta aqui seu Tonico , amarra a égua no mourão e vem tomar uma água , esse calor tá de rachar, canta uma moda pra gente,..vai lá menino, busca a viola do pai.

Espera pro almoço, seu Tonico,eu to fazendo costela com mandioca, o senhor gosta?

21/06/2017

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Vó Virginia

 
Caxumba, umba, catibiribumba,seja maticumba do firififumba, não queiram saber o que significam essas palavras, porque eu também nem imagino o que sejam.
 
Quem falava assim era a minha finada avó Virginia, baianinha pequenininha, atarracada, perninha torta, amarga igual jiló, azeda feito limão, ardida como pimenta, brava igual a uma cascavel, crente convicta, mas parecia o capeta.
 
A primeira vez que ouvi essas frases, foi quando eu peguei caxumba( naquela época ainda existia caxumba) fiquei com a cara inchada, parecia que tinha uma bola de bilhar na boca, a mãe não deixava fazer nada, tinha que ficar quieto, se possível de molho na cama, ela dizia que se eu ficasse pulando, a caxumba descia pro saco, hoje eu fico pensando, e quando era com as meninas, descia pra onde?
 
Pra cada palavra que eu falava, a vó vinha com suas maluquices e eu molequinho tranqueira que eu era, ficava falando palavrões só pra ouvir as doideiras da baianinha.
 
A vó e o vô não se bicavam, não se entendiam nem a pau, o vô Ezequiel também era baiano, mas ele era um velho muito do sossegado, tranquilo, mas quando azedava, não havia Cristo que o acalmasse.
 
Um dia a vó pegou um pedaço de carvão e fez um risco na sala de fora a fora, pegou um facão e falou pro vô, você fica do seu lado e eu fico do meu, eu passo pro seu lado a hora que eu quiser, mas se você passar pro meu lado, eu te retalho todo.
 
Podia até não acontecer, mas ele não pagou pra ver.
 
Volta e meia, eu tinha umas tretas com ela, ela gritava que eu era um moleque do capeta, eu falava que ela era uma velha ranzinza, mas eu falava bem baixinho( que eu não era bobo, nem nada) ela dizia que um dia eu ia pagar pelas malvadezas que eu fazia e olha que praga de vó pega, tempos depois eu me casei com uma baiana.
 
Mas, no fundo, a vó Virginia não era ruim, ruim foi a onça que não comeu ela.
 
Assim o tempo foi passando, a gente foi mudando de bairro, de cidade, cada um pro seu lado. Quando ela veio a falecer, eu morava em Campinas e ela em Rio Claro, acabei não indo no seu velório.
 
Apesar das nossas desavenças, eu tenho saudades da vó, que Deus a tenha, enha, catibiribenha...
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