Contos do Fachini

Valdir Fachini
Compositor  - Escritor
valdirfachini53@gmail.com

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21/02/2017

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Dimetilaminofenildimetilpirazolona


Quem conheceu a Mariazinha, na época que eu a conheci, vai concordar comigo, Ela era um piteuzinho, um doce de coco, uma fofura, todo adjetivo que se possa imaginar, ela era, a gente tinha quase a mesma idade, talvez eu fosse um ano mais velho que ela, treze pra quatorze anos.

Mariazinha morava na mesma rua que eu, umas vinte casas acima da minha, a casa dela era a única assobradada, o único carro do bairro, era um fusca e era do pai dela, a única antena de televisão do pedaço, era na casa dela.

Talvez, por esses motivos, ela se tornasse mais bonita e cobiçada.

Mariazinha era o ponto de referência do lugar, quando alguém queria saber de algum endereço, a gente sempre dizia, é algumas casas depois da casa da Mariazinha, ou, na rua de traz da casa da Mariazinha, ou, tal pessoa é amiga da Mariazinha.

Eu era apaixonado por ela, mas ela nunca me deu bola e como eu era muito tímido, não sabia o que fazer pra que ela me notasse, na época , o Tremendão fazia sucesso com uma música que dizia assim.......vou acabar ficando nu, pra chamar sua atenção......Roberto e Erasmo, sabe que eu até pensei em fazer o mesmo, mas não tive coragem de pagar esse mico.

A molecada toda fazia alguma coisa que ela achava legal, cada um ganhava um prêmio, o Zé andava de bicicleta de costas e sempre ganhava um beijo no rosto, o Tião andava um quarteirão inteirinho plantando bananeira e ganhava dois beijos, um em cada lado do rosto, todos tinham o seu troféu, um sorriso, um aperto de mão, um abraço, qualquer coisa do tipo.

Mas eu queria ganhar era o seu coração, só que eu era um molenga, um zero a esquerda, não sabia fazer nada, por isso não tinha direito a prêmio nenhum.

Uma tarde de muito sol, Mariazinha estava jogando peteca com as amigas lá na praça e o bestão aqui ficou um tempão admirando a menina, cada tapa que ela dava no brinquedo, meus olhos faiscavam de emoção, imaginando aquelas mãos me dando tapas de amor.

O sol me rachando a cuca e eu nem ligando.

A noite depois da janta, eu falei pra mãe que eu estava com dor de cabeça por causa do sol, ela me mandou deitar e me deu um comprimido de CIBALENA, eu tomei a pílula e fiquei lendo as letrinhas do envelope em que ela vinha, então descobri uma palavra compridona que eu nunca tinha visto antes, devia ser o nome de um componente do remédio.

Então eu pensei, vou aprender a falar essa palavrona, vou chegar perto dela e falar, ela vai me achar inteligente e vai gostar de mim, eu li e reli umas mil vezes até aprender, já estava na ponta da língua.

Eu já me via namorando com ela, noivando,depois casando e tendo um montão de filhos, cada um com o nome começando com uma sílaba daquela palavra, Dilermando, Mercedes,Tibúrcio, Laércio, seriam dezesseis barrigudinhos enchendo nossa casa de alegria.

Assim eu fiz, cheguei bem pertinho dela e tasquei a palavrona, fechei meus olhos e fiquei esperando meu beijo, não ganhei, só escutei um risinho, mas ela não estava rindo pra mim, estava rindo de mim, peguei minha cara do chão e fui embora.

Desse dia em diante, minha paixão por ela foi diminuindo, enfraquecendo até acabar de vez, aquela palavra nunca mais eu falei, hoje quando fui escrever esse causo, eu tive que procurar no Google.

Agora eu acho graça da minha inocência, se fosse hoje, eu não perderia tanto tempo aprendendo aquela palavrona inútil, eu diria um coisa muito mais eficaz, eu te amo.

19/02/2017

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Entre meia noite e meia noite e meia


Se nos próximos trinta minutos, eu não cair nos braços de Morfeu, eu me levanto, tomo um banho de sal grosso, que eu estou precisando, coloco uma beca ajeitada, medalhão de ouro que  o pai me deu, me produzo todo, fico mais alinhado que manequim de funerária, mais cheiroso que filho de barbeiro, pego minha Belinona marrom café e pernas pra que te quero.

Vou fazer igual a noite passada, me dei o mesmo prazo, não adormeci, então eu fiz o que vou fazer hoje de novo, me pirulitei.

Não sei que horas voltei, só sei que acordei com a calça molhada, não sei se derramei cerveja ou me mijei mesmo, um gosto ruim na boca, pode ser cachaça estragada ou cachorro lambeu, baba de moça bonita eu sei que não foi, porquê, se sóbrio eu não pego bulhufas, imagina mamado.

Faz tempo que eu estou levando essa vida boêmia, depois que a Frederica foi embora, tudo que era de bom em mim, também se foi, minha esperança no futuro, minha paciência, meu dinheiro, minha vergonha na cara, até minha saúde está descendo ralo abaixo, está indo pro beleléu e eu não me esforço nem um pouco pra mudar essa merda de situação, dá a impressão que assim está maravilhosamente bem, essa falta de perspectiva está ótima, eu que já era meio porra louca, agora me destrambelhei de vez, me relaxei por inteiro.

Eu sei que nessa meia hora, muita coisa vai acontecer, casais apaixonados trocarão juras de amor, enquanto se abraçam, se beijam, e se perdem de paixão, enroscados num lençol qualquer, meninos e meninas estarão juntos perdendo a virgindade, cônjuges que a muito tempo se ignoravam estarão se reencontrando, velhos que depois de mais uma tentativa, desistirão, mas não deixarão de se amar e dormirão confiantes do dever quase cumprido, mulheres se enroscarão uma na outra numa paixão frenética, homens se abraçarão e se beijarão (eca ).

Vou ficar mais mil e oitocentos segundos deitado nessa cama, sem me mexer um só centímetro, nem pra tentar matar esse desgraçado de pernilongo que já está me enchendo os picuás , também não vou pensar em nada, nem nas glórias que já tive, muito menos nas cagadas que já fiz, se for possível fazer yoga deitado, eu farei, vou criar um espaço sideral fictício, onde a minha mente irá viajar feito uma nave de galáxia em galáxia, se bem que também não sei se essas idéias doidas me trarão sono, mas eu vou tentar, não tenho nada a perder mesmo, o máximo que pode acontecer, é eu ficar mais pinéu.

Se nesses dois quartos de hora, eu ainda estiver acordado, não tenho dúvidas, me levanto, me ajeito e (partiu gandaia). Sei que no outro dia, vai ser aquela mesma porcaria de sempre, latinha de cerveja por todo o carro, vômito no banco traseiro, preservativo no assoalho e eu não peguei ninguém.

A mãe diz que é só Jesus na causa, mas eu digo que vou mudar, mas , mudar como? se qualquer motivo é motivo pra boemia, uma desilusão....pinga, o time perdeu...cachaça, o sono se foi.....manguaça. pra mudança eu não vejo um motivo e pretexto pra esbórnia tem pra mais de mil, ai fica difícil.

Só mais vinte e nove minutos e cinquenta e nove segundos,...senão.
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