Contos do Fachini

Valdir Fachini
Compositor  - Escritor
valdirfachini53@gmail.com

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01/04/2017

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Oferenda que o mar não quis


Casei....Até hoje eu não sei se casamento é benção ou maldição, eu podia ter casado com Gertrudes, mas me casei com Mafalda, acho que foi praga de mãe.

No começo era uma beleza, eu estava me sentindo o Caetano Veloso, era tudo divino e maravilhoso, ela me trazia os chinelos, apertava meus cravos, perguntava se eu não queria ir jogar bola com os amigos, é claro que eu nunca ia, eu era um perna de pau, não servia nem pra gandula. E muitas outras coisas que ela fazia e eu gostava e ela tinha prazer em fazer, até me apresentava suas amigas gostosas, sem sentir ciúmes.

Mas o tempo foi passando e a rotina como sempre metendo o bedelho na vida dos casais e assim foi com a gente.

Eu fui ficando barrigudo e relaxado, ela foi ficando pançuda e desleixada, se eu quisesse meus chinelos, eu mesmo teria que ir buscar e ficava xingando ela, se eu deixava a toalha molhada em cima da cama, era ela quem me xingava, ela já não era mais a mesma e eu tinha piorado e muito.

Com o passar dos anos eu fui percebendo que as brigas e xingamentos não resolviam nada, então me policiei, só que ela se esqueceu de parar pra perceber o mesmo e continuou com seu mau humor infernal.

Cheguei ao ponto de pensar em dar uma facãozada no pescoço dela e expor sua cabeça, igual fizeram os macacos com o Lampião (calma gente! foi só um pensamento na hora da raiva, eu não ia ter coragem pra isso não ).
Uma vez eu fui embora de casa, me lasquei todo, não sabia cozinhar um feijão, fritar um ovo, pra lavar minhas cuecas era uma negação, as freadas de bicicleta ficavam do mesmo jeito.

Voltei pra casa com o rabo no meio das pernas, pedindo perdão, dizendo que a amava e o escambáu.

Final de dezembro, la vamos nós pra praia, areia cheia de flores, um monte de gente mandando barquinhos com flores, doces e velas pro meio do mar em troca pedindo graças à rainha dos mares, mãe dos orixás, nosso barquinho também estava lá.

De repente eu tive uma ideia genial, aluguei uma prancha e convenci a dona da pensão que ela seria uma ótima surfista, ela acreditou.

E la foi ela nadando rumo ao alto mar, se achando uma sereia, eu fiz de conta que tinha esquecido de falar pra ela amarrar a cordinha da prancha no tornozelo, mas ela é uma ótima nadadora, nos corguinhos lá do bairro não tinha pra ninguém.

De repente, la vem ela, rolando por cima das ondas, feito uma bola, parecia aquelas bolas de arbusto dos filmes de faroeste.

E ainda vinha gritando....hiurruuuuu! toda feliz, como se estivesse na montanha russa da Disney, feito pinto no lixo, então finalmente, chegou na praia, rolando na areia, parecendo um bife de casquinha.

A prancha morreu afogada, mas ela ficou vivinha da Silva e ainda me perguntou....me sai bem?

28/03/2017

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Mãe Odete de Bindão


Por vinte e poucos anos ela teve a felicidade de ser chamada de mãe, mas Deus requisitou sua filha única para ir morar ao lado dele, Duas netas ficaram para preencher o vazio do seu coração angustiado, duas meninas que se apossaram de todo amor que ela tinha pra dar, duas crianças pra ocupar o lugar na casa e na alma.

Odete é seu verdadeiro nome, nome com o qual foi batizada, mas que muitas vezes nos becos da vida teve que usar pseudônimos. Nos palcos da sua existência ela já foi Frida, Margarida, já foi querida,já fez vontade de magnata, viralata, Guevara e Zapata, já foi cantora, aviadora, já calejou as mãos na vassoura, de tudo já fez um pouco, sofreu demais, viveu de menos, chorou muito, pouco sorriu,amou a tantos e outro tanto foi amada e desejada.

Bindão era o apelido do pai que ela teve e ao mesmo tempo não teve, um pai que além do sobrenome não lhe deu mais nada, presença, presente, endereço, não enxugou suas lágrimas, não lhe fez companhia até a porta da escola, não chorou com ela sua primeira desilusão, não recriminou sua saia curta, não conheceu seu primeiro sutiã, foi pai sem ser pai.

Mãe Odete de Bindão foi o título adequado que eu achei pra essa pequena história dessa grande mulher.

Mãe, não pelo simples fato de ser mãe, mas por as vezes fazer o papel de cartomante e quiromante sem nunca ter sido, pois a fome não espera por dias melhores e nem que a sorte venha bater em sua porta.

Sua experiência de vida e seu conhecimento da mente do homem muito lhes ajudaram nesse ofício que nunca te trouxe orgulho.

Suas histórias e seus causos infindos, nos fazem viajar na sua imaginação, nos prendem em nossos assentos a espera de uma outra façanha, outra aventura mirabolante.

Hoje essa mulher já não tem mais o vigor de antes, já não tenta tirar palavras de mãos calejadas de ninguém, já não ilude pessoa alguma com falsas vitórias que as cartas prometem, já não faz o gosto e a vontade de capitães tarados, já não passeia por jardins fantásticos,nem por vielas nojentas, mas ainda sonha.

Ainda tem sonhos com castelos, gentis cavalheiros e príncipes encantados, embora saiba que isso não importa, tudo o que ela quer é paz e saúde pra ver seus netos e bisnetos vivendo uma vida melhor que a sua, onde a alegria seja o máximo e a tristeza o mínimo.

Ela ainda sonha que antes que Deus a leve pra também descansar ao seu lado, ainda tenha tempo pra alegrar muitos corações com suas histórias, falsas ou verdadeiras não faz mal e suas lições de vida.

E quem sabe um dia alguém escreva um livro que poderia até se chamar ...Mãe Odete de todos nós.
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