Contos do Fachini

Valdir Fachini
Compositor  - Escritor
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26/12/2016

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A bolinha de ping-pong vermelha


E nasce o Inácio. Conta a história que numa manhã chuvosa do mês de janeiro do ano de mil novecentos e bolinha, na maternidade Alice da Luz da cidade de Santo Antônio das Codorninhas, cidade esta, ao norte de um estado lá do norte. Veio ao mundo,  um menino que ganhou o nome de Inácio Pinto, primogênito de um casal endinheirado  e metido a besta, sendo o pai, o sr. Armando Pinto e a mãe, a sra. A. Dora Pinto.

A cidade toda pagava um pau pra família, então todo mundo foi levar presentes pro pirralho recém nascido, fez até fila na porta da casa, parecia os Reis Magos, cada um levava uma coisa, tinha tapete de retalho, farinha, biju, guizo de cascavel, só não tinha mirra.

Assim foi o ano todo, presentes, festas, tombos, hematomas e muito mais. No seu primeiro aniversário, o riquinho ainda não tinha noção do que queria, então aceitou o presente que o pai deu, no segundo ano, ele já conseguia arranhar algumas palavras, por isso pediu uma bolinha de ping pong vermelha. O genitor ficou estupefato ......que desejo mais doido, menino, pra que você quer isso? me conta......e ele respondeu......conto, me da que depois eu conto.

Mas o pai, com todo seu dinheiro e ignorância, não ia dar um presente tão mixuruca, comprou uma coisa mil vezes mais caro, o guri gostou, mas ficou chateado, poxa dad, eu queria uma bolinha de ping pong vermelha, obrigado assim mesmo.

Um ano depois, outro aniversário, porem, o mesmo pedido, uma bolinha de ping pong vermelha.

Mas o que ele ganhou foi uma bicicleta toda de ouro, feita por encomenda lá na Cochinchina. De novo outra reclamação.....caramba Popoio..e a minha bolinha de ping pong vermelha?.. e o pai.....mas nenem, você não me conta porquê você quer, ai eu não compro....e o merdinha...eu não conto porquê você não me da, me da que eu conto.

365 dias depois, ano quarto, dr. Armando pergunta....filhote, que rico presente você quer ganhar  esse ano? ..fedelho diz....não quero um rico, mas sim, um humilde presente, quero uma bolinha de ping pong vermelha e só vou dizer porquê quero depois de ganhar.

Oh moleque chato, eu desvio dinheiro da merenda escolar (dr Pinto era o vereador mais votado da cidade ) pra dar vida boa  pra família e ele me pede uma bolinha de ping pong vermelha e ainda por cima não me conta o porquê desse desejo troncho, vai ganhar uma bola de capotão feita com couro de javali da Indonésia.

Os olhos do traquinas brilharam de alegria pelo mimo, mas ao mesmo tempo uma lágrima caiu, pois mais uma vez, seu desejo não foi atendido.

Red small ball ping pong, foi assim, fazendo charminho, no seu inglês furreca, que no quinto aniversário, ele tentou mais uma vez ganhar sua bolinha de ping  pong vermelha, mas não teve jeito, não ganhou, não quis dizer  porquê de querer tanto esse brinquedinho, bem feito mas ganhou um long play dos Beatles,, vindo exclusivamente pra ele da Inglaterra, autografado pelos garotos de Liverpool.

Oh yeah, i´ll tell you something, passou o dia inteiro cantarolando essa música, quando o pai chegou a noite da câmara, depois de um estafante dia de falcatruas, o beatlemaniacozinho questionou.....pai, e o meu pedido, cadê?....o pai responde ..,você não me disse porquê quer essa bolinha....o nojentinho retruca......me dá que eu conto, prometo.

Os anos foram passando, os aniversários chegando, presentes caros ganhando, e a bolinha e ping pong vermelha não vindo  e o pai insistindo,..meu filho, faz tempo que você me pede essa tal de bolinha de ping pong vermelha, por favor meu filho, fala pra mim o porquê desse desejo e o rapaz dizendo ....quero porquê quero, enquanto não ganhar, vou continuar querendo até o senhor me dar.

E foi assim até Inacinho se formar médico, então ele foi medicar na clínica que seu avô, o dr. Serafim do Pinto fundou, lá já estavam seus primos, dra. A. Lisa Pinto, dr. Caio Pinto e dr. H. Romeu Pinto.

Quando ele fez sua primeira cirurgia sozinho, seu pai quis te dar um presente, dr. Armando, agora no seu quinto mandato, tinha ganho uma boa grana de propina, falou pro doutorzinho escolher seu presente, as opções eram, um Opala, um Maverick, ou um Puma, ele pediu uma bolinha de ping pong vermelha....ganhou um puma.

Domingo a tarde, Inácio a 150 por hora (o Puma corria pra cacete) inexperiente se arrebentaram todo ( ele e o Puma) .

No hospital, o doutor falou, tio, infelizmente não dá pra fazer nada por ele, agora é só rezar e pedir pra Deus levar ele em paz.

No leito de  morte , o pai pergunta, ....meu filho, qual o seu último desejo?

....Uma bolinha de ping pong vermelha.

E foi aquela procura desesperada pra achar a danada da bolinha, lugar nenhum tinha, correram então pra capital, la também não tinha, então sugeriram comprar uma branca e pintar de vermelho, assim foi feito.

Voltaram para o hospital, ele já estava nas últimas.

Pronto meu filho, aqui está sua  bolinha de ping pong vermelha, agora por favor acabe com essa tortura e conta porquê você tanto a quis.

Quase sem voz, mas com um brilho imenso no olhar, ele  pega a bolinha, com um esforço enorme ergue o braço e exibe com orgulho o presente que a vida toda almejou, calmamente apertou a bolinha de ping pong vermelha contra o peito e morreu.

16/12/2016

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O Secredo


Faltava poucos dias pro Vitinho completar cinco anos, ele já estava um molecão parrudo, já sabia contar até dez em inglês, conhecia cores, já chacoalhava o pipi quando fazia xixi, limpava a bunda sozinho, mas tinha uma coisa que ele não sabia e o seu pai, seu Vitorino, decidiu contar no dia do seu aniversário, tava decidido, desse dia não passava.

Mas, dona Vitória, mãe zelosa e preocupada, achou que não estava na hora, Vitor Hugo ainda era muito criança e talvez essa revelação pudesse afetar seu psicológico quem sabe até precisasse fazer terapia, resolveram então esperar mais um pouco.

Faltava poucos dias pro sexto aniversário do pimpolho, esse ano ele já estava mais parrudo, pra não dizer, balofo, pançudo, obeso, já sabia fazer mais coisas, como, soltar pipas, girar pião, porem a coisa que ele mais precisava saber, o que talvez fosse mudar o seu destino completamente, ele ainda não sabia e não era esse ano que seus pais iriam te contar, eles não acumularam coragem suficiente pra isso, talvez no próximo niver.

Chegou o ano sete, Vitinho já era Vitão, mais magro, mais sabido, já arriscava alguns acordes no violão, já sabia quando um cara era viado, mas continuava sem saber do grande segredo

Oito anos, já andava de bicicleta, sem as duas rodinha auxiliares, mesmo assim, seu Vitorino e dona Vitória, ainda achavam que era cedo pra tão terrível revelação.

Nove, dez onze anos, Vitor já era um varapau, dominava o inglês, craque no basquete e já arriscava umas bitocas de língua nas menininhas, era só orgulho para os pais, talvez por esse motivo eles tinham medo de contar a grande incógnita, medo que o garoto regredisse mentalmente, então mais uma vez omitiram;

Quando ele fez dezoito anos, se alistou no exército, como ele era um rapagão forte, inteligente e prendado, os caras do  quartel acharam que ele seria útil para o país, então iria servir.

Mais outra preocupação para os pais, pois achavam que naquele monte de homem, algum também podia saber do enorme segredo e contar pro soldado Vitor e poderia acontecer uma tragédia na guarnição.

Graças a Deus, nada aconteceu.

Então os anos foram passando normalmente e para o agora homem, aquele segredo, ainda era segredo. Foram tantas namoradas, grandes desilusões, muitas dores de barriga, diversos porres, piolho, caspa, chato, o escambau, até já estar pronto para o casório.

Era chegada a hora dos pais marcarem uma reunião e finalmente acabar com essa lenga lenga....só que não.

Talvez ainda fosse cedo, vá que o menino fique abalado e broxe, então a lua de mel vai pras cucuias.

Não faz mal esperar mais um pouco.

A festa foi pra la de supimpa, a viagem, um espetáculo e voltaram.

Vitinho tinha uma novidade,  juntou a família e deu a boa noticia, ...vocês vão ser avós.

Depois foi a vez do seu Vitorino falar,....sua noticia foi boa foi a melhor que já recebemos, à muito esperávamos por ela, você nos deixou felizes, mas nós temos um segredo que esteve guardado a sete chaves o tempo todo e chegou a hora de te contar.

Espera sua mãe chegar com um copo de água com açúcar, porquê isso vai te chocar e muito, esperamos que essa revelação não te traga consequências, nem te deixe sequelas, então seja forte e escute....meu filho    Papai Noel não existe.