Contos do Fachini

Valdir Fachini
Compositor  - Escritor
valdirfachini53@gmail.com

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12/03/2017

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Repimbela da parafuzeta


100, 120 por hora ,lá vou eu na estrada ,sonzão ligado ,pé atolado Cezar e Paulinho ,Roberto Carlos ,Rolling Stones,não quero nem saber quem está cantando ,eu vou cantando junto ,Na subida o motorzão geme ,na descida é só banguela ,vez em quando um treminhão na frente ,ai eu piso fundo,ele fica pra trás ,outra hora uma BMW dá sinal de farol  eu piso mais fundo ainda mas não adianta  desta vez eu fico pra trás e muito.

100, 110, 120,110,100,90 ,80 ,70 e acostamento ,dali o carro só sai no guincho.

Me deixaram numa oficina boca de porco na beira da estrada , o lugar era imundo ,o macacão do mecânico mais ainda , mas o cara foi muito educado e atencioso ,só não gostei quando ele me disse -quebrou a  repimbela da parafuzeta  , aqui na região não vai ter, vou ter que pedir na capital e vai demorar uns quatro dias pra chegar ,mas é o seguinte ,eu tenho um carro igual ao seu  ,eu posso tirar a peça do meu e coloco no seu ,a peça custa tanto minha mão de obra mais tanto  o incômodo por eu ficar a pé não vou cobrar .

Esse tanto mais o outro tanto ficava uma fortuna ,que eu acabei pagando em dinheiro porquê ele não aceitou cartão ,então eu desisti de ir para Lambari do norte e voltei pra casa .

Passaram -se uns três anos e lá vou eu com o mesmo carro ,outra estrada e outro destino ,o sonzão já não é o mesmo ,agora é pen drive ,mas ainda canto junto com o  Cezar o Roberto e o Mike ,120 por hora não mais , a caranga treme toda ,até 100 ainda vai ,100,90,80 e depois acostamento.

Desta vez o guincho me deixou numa oficina melhorzinha , o mecânico bem mais limpo , também muito educado igual o outro do passado .

Ele abriu o capô e já foi perguntando ....esse carro já te deu esse mesmo problema algum tempo atras não foi ? eu respondi que sim .

Ele falou que o defeito era com a mesma peça mas que ia dar um jeito rapidinho .

Cinco minutos depois ele falou ....tá pronto ,a peça está quebrada mas nem precisou trocar ,eu fiz uma gambiarra com arame igual o cara fez da outra vez ,dá pra você ir até Lambari do Norte e voltar sem problema ...e eu não vou te cobrar nada.

09/03/2017

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A tampa da caneta


Ontem eu cheguei em casa, meio assim, mais pra lá do que pra cá, confesso que tinha tomado alguns rabo de galos no boteco do Troca letra (o Troca letra não é japonês não, mas ele troca o ele pelo erre ao contrario do Cebolinha), então eu estava lá com uns camaradas jogando conversa fora, falando das gostosas do bairro, (ninguém falou da minha mulher, não sei se foi por respeito ou se a gostosura dela há muito tempo já se foi), conversa vai e vem, o Troca põe mais um copo no balcão, eu tomo e o papo continua.

Então o assunto foi ficando repetitivo, sem pé e sem cabeça, Chitãozinho e Xororó já estavam cantando em alemão, ai eu resolvi e fui embora.

Quando abri o portão, (que não foi fácil), notei alguma coisa estranha. As luzes estavam apagadas, como não era de costume, silêncio total, será que deu um piripaque na minha mulher?

Abri a porta, acendi a luz, tava tudo arrumado, a sala tava um brinco, só meu violão que estava fora da capa, mas acho que fui eu mesmo que deixei, na mesa de centro um bilhete que com muito custo consegui ler - “decidi, estou te deixando, pode ser que um dia eu volte, se você voltar a ser o que era antes, quando seus amigos forem menos importantes que eu, quando as gostosas forem menos gostosas que eu, quando o seu rabo de galo não for melhor que o meu, a decisão é sua”.

Na cozinha não tinha nada fora do lugar, nem um copo na pia, na geladeira um bifão de contra filé temperado do jeito que só ela sabe fazer e na mesa outro bilhete - “se não aprender a cozinhar vai comer miojo o resto da vida, se vira”.

O quintal estava uma beleza, nem uma folha ao vento, nem uma roupa no varal, só uma brisa leve me dizendo - “bem feito, seu tonto, agora vê se dá os seus pulos”.

À hora de entrar no quarto é que foi mais difícil, não sabia se entrava ou se ia pra sala me descabelar, criei coragem, abri a porta e entrei, também estava tudo em seu lugar, menos as suas bijuterias, (eu nunca fui capaz de dar uma jóia de valor pra ela), seus perfumes, (isso ela tem bastante) e as roupas dela, ela levou quase todas, as que ficaram deve ser porque não couberam na mala ou pra me dar um pouco de esperança.

Na cama outro bilhete que eu me recusei a ler, amassei, mas não joguei, só joguei meu corpo desiludido na cama e ali fiquei até o amanhecer me agarrando às últimas coisas que ela deixou; As lembranças, um bilhete não lido e a tampa da caneta.