Laudemiro Rodrigues

Cosmopolita Alagoano

A Era das Primaveras

Reprodução

Nos últimos anos, a palavra “primavera” foi relacionada com a grande onda de protestos no Oriente Médio e África, assim, a origem do novo conceito do termo está elencada ao que se chamou de Primavera Árabe. Por si, Primavera Árabe não representa só um único evento histórico, alude principalmente ao período de transições históricas que viria a mudar o rumo da Política Internacional. Sua gênese essencial baseia-se nas manifestações populares que buscavam melhores condições sociais e/ou a derrubada de ditadores daquela região. Os principais núcleos dos eventos oriundos desse período (meados de 2010) estavam localizados na Tunísia, Egito e Líbia.

Foi em território tunisino onde ocorreram os primeiros protestos, e que ficaram conhecidos como “Revolução de Jasmim”. Descontente com o então regime ditatorial, a população organizou-se em grupos de manifestantes de caráter popular e ocupou as principais ruas, avenidas e cidades do país. O início dessa do pensamento revolucionário na Tunísia foi o simples confisco de produtos de um jovem vendedor de frutas (Mohamed Bouazizi), que em forma de protesto individual ateou fogo em seu próprio corpo, marcando assim o inicio de uma gigantesca onda de manifestações populares. Algumas semanas depois, os protestos tiveram êxito e então o ditador Ben Ali sofre a queda política.

Porém nem tudo são flores em uma primavera…

A onda de protestos populares espalhou-se pelo oriente e chegou a tomar proporções brutais. O exemplo mais sangrento ocorreu na Líbia, país onde a população se voltou contra seu ditador Muammar Kadhafi. O ditador foi assassinado por uma multidão enfurecida no dia 20 de outubro de 2011, linchado em praça pública até a morte.

As manifestações da Primavera Árabe (e seus decorrentes) ocorrem com a participação de um importante ator que servira como catalizador dos eventos: a mídia independente. Aqui, conceitua-se a mídia independente como meios de comunicação não oficiais e grupos articulados em redes sociais tradicionais e alternativas. A mídia tradicional sofria perseguições nos regimes ditatoriais do Oriente Médio. E em consequência disso, a população, de forma engenhosa, articulava os encontros de forma discreta e até mesmo oculta.

Dita a origem da fagulha das manifestações populares, tem-se os exemplos que estão mais próximos da nossa realidade. Em 2013, um ano apenas antes das eleições presidenciais brasileiras, uma grande onda de protestos ocorreu na maioria das capitais e grandes cidades do país. O motivo? A insatisfação política daquele período. O grande estopim foi o pequeno aumento no preço da passagem do transporte urbano (R$ 0,20). Assim, bastou apenas a pequena centelha para a explosão de manifestações que desencadeou até uma invasão a área externa do Congresso Nacional.

Atualmente, não se pode esquecer dos acontecimentos que fizeram parte da história de nossos “hermanos” latinos, em especial argentinos e chilenos. Tanto no Chile como na Argentina ocorreram manifestações populares de caráter visivelmente político, baseados nas fracassadas políticas econômicas argentina e chilena. Finalmente o povo latino saiu da inércia e se deu conta de que o poder supremo é de caráter popular.

O Brasil viveu um grande momento de instabilidade política após as manifestações de 2013. Os protestos populares durante o período que antecedeu o processo de impeachment de Dilma Rousseff foram uma página na história brasileira. Há quem diga que as manifestações foram influenciadas pelos exemplos vindos da Primavera Árabe, agarrando-se em pretextos democráticos, soberanos, tradicionais e patrióticos.

Em 2020, o cenário internacional se depara com novas ondas de protestos pelo mundo. A mais recente é de caráter extremamente social e teve como estopim o assassinato de um jovem negro ao ser estrangulado por um policial branco nos Estados Unidos. Tal atitude desencadeou dezenas de manifestações populares que bradavam palavras de ordem contra o racismo em território americano. Contudo, o racismo é um problema estrutural e não está apegado apenas aos Estados Unidos. Manifestações de cunho antirracista ocuparam ruas de diversas cidades ao redor do mundo, com o objetivo de fazer com que o tema “racismo” seja posto em pauta de uma vez por todas nas agendas políticas dos países e organizações mundiais.

De forma paralela, o Brasil vive novamente um momento atípico de protestos derivados da força de vontade recebida anos atrás na Primavera Árabe. De forma única, os protestos atuais dividem politicamente a população, fazendo com que ocorram atritos nas bandeiras levantadas nas ruas. Porém, a questão interna brasileira é tema para outro texto, aqui, deixa-se de forma explícita que o poder popular continua sendo o detentor de enorme domínio em democracias, mesmo que vá de encontro com governantes eleitos pelo próprio povo.

Em resumo, os últimos anos foram marcados por uma grande exposição de terrenos férteis para as manifestações populares. Resta para a população entender que um simples descontentamento econômico e/ou político pode ser o pavio para grandes protestos populares, e isso será o suficiente para deixar os governantes com o sinal de alerta ligado.

Se o grande historiador Eric Hobsbawn ainda estivesse com vida, esse período possivelmente iria gerar mais um volume para a sua coleção das “Eras”.

A Era das Primaveras.

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