23 de Junho de 2018

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Wanderson Gomes

Ciências Sociais (graduação) e sociologia (mestrado)

Wanderson Gomes | wandersonjfgomes@hotmail.com

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27/02/2018

A faroestenização do cangaço no filme O Matador (2017)

Guardo a viva lembrança da infância, de ver meus tios e tias se reunindo para assistir clássicos filmes americanos do gênero Western (ou filmes de faroeste), em tardes de um sábado qualquer. Também havia momentos só para filmes do cangaço brasileiro. Mesmo muito pequeno, sabia diferenciá-los tranquilamente. As ferramentas de combate eram outras... E também os figurinos, os cenários, rostos, sotaques, climas, cavalos fortes, outros magros e famintos. Tanto as histórias ambientadas no Velho Oeste do século XIX quanto as do Nordeste brasileiro de Lampião, marcaram gerações, moldaram gêneros e firmaram modos de produção audiovisual. Cowboys e cangaceiros eram interessantíssimos, cada qual a seu modo particular.

Recentemente, assisti O Matador, lançado em 10 de novembro de 2017, primeiro longa-metragem brasileiro de ficção produzido pela Netflix, dirigido e roteirizado pelo jovem Marcelo Falcão. Ambientado no sertão nordestino da década de 40, o filme conta a história do temido assassino pernambucano Cabeleira (Diogo Morgado), salvo da morte e criado por Sete Orelhas (Deto Montenegro). Educado no pior regime possível e amaldiçoado pela riqueza de uma pobre terra, Cabeleira sai em busca de seu pai adotivo após um retorno da cidade que jamais aconteceu. A história é narrada por um então desconhecido personagem, como se fosse apenas uma dessas lendas que se ouve no sertão. Cabeleira, criado nos confins de uma terra sem vida, vai para a "cidade dos homens" buscar informações sobre Sete Orelhas, ostentando toda a sua destemida habilidade, brutalidade e falta de empatia, sendo assassino perfeito aos interesses de um burguês francês, Monsieur Blanchard (Etienne Chicot).

O filme estaria bem amarrado caso fosse essa a trama principal, mas tal objetivo não fica claro. Logo, outros desdobramentos podem ser percebidos e você rapidamente nota um excesso de complexidade na história que, ao contrário, acaba tornando rasos os seus propósitos. O sertão é convidativo visto da televisão. O cenário deslumbrante termina por ser pouco explorado, os cangaceiros surgem vez ou outra (dentre os quais, um legítimo integrante do bando de Lampião), mas não tomam seu protagonismo, que deveria ser natural para aquele contexto. Cabeleira some de cena por alguns tediosos minutos e dá lugar à apresentação de personagens em subtramas paralelas e raramente desenvolvidas, como se falhassem ao buscar uma tensão orgânica e dramaticidade de conflitos aos moldes de Tarantino. Parece que O Matador tinha tudo nas mãos, mas se entregou ao formato americano de fazer filmes. No fim, acabou não fazendo uma coisa nem outra. Sites especializados, que tanto criaram expectativas com o período que antecedeu o lançamento oficial do longa, estavam de luto pelos rumos escolhidos pela produção.

Diferentemente do que pensam tais sites, não compactuo de muitas críticas desferidas contra Galvão e seu intento, embora vocês tenham acabado de ler uma sentença um tanto dura de minha parte. O Matador oscila, mas possui momentos altos e o clímax não deixa tanto a desejar como se diz. Além de pequenas qualidades que podem ser apontadas, há uma central: este filme buscou diferenciar ao tratar os conflitos na terra do cangaço, alterando o modus operandi, mesmo que, infelizmente, seja esquecível. Não poderia deixar de citar a excelente atuação de Paulo Gorgulho na pele do Tenente Sobral. Ele surgiu inesperadamente num dos períodos de sonolência do filme, mas tomou as rédeas após um trágico acontecimento e me fez ver que ele é quem deveria vestir o traje de protagonista ao invés de Diogo Morgado, que foi regular.

Efeitos visuais ainda não são o nosso forte, mas o potencial da indústria brasileira para fazer bons filmes está se tornando uma realidade cada vez mais corriqueira. É possível perceber um bom trabalho de câmeras, planos, auxiliados pela diversidade natural que impressiona. Neste filme, efeitos foram mal escolhidos, mas a atmosfera nordestina é absolutamente impecável e cria ânimo nos mais entusiasmados pelo gênero. Mesmo buscando sair da caixinha e modificar os padrões ao fazer filmes de cangaceiros, seguir o gênero de faroeste como parâmetro foi uma decisão errada, que deturpa as dinâmicas do sertão, já tão bem abordadas e estabelecidas pelo cinema nacional. Há possibilidades de mudanças para o gênero, mas a personalidade do Velho Oeste não nos diz respeito.

Repito: cowboys e cangaceiros são interessantíssimos, cada qual a seu modo particular.

E você, viu O Matador? Qual sua opinião?

Até breve!

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