26 de Maio de 2018

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Wanderson Gomes

Ciências Sociais (graduação) e sociologia (mestrado)

Wanderson Gomes | wandersonjfgomes@hotmail.com

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01/03/2018

E agora, José?

Nas últimas semanas venho mergulhando na vida e obra de José Padilha, buscando entender sua filosofia que o coloca entre os maiores nomes do cinema nacional e internacional. Cineasta, documentarista, roteirista e produtor, José Padilha conquistou fama ao seguir uma linha de trabalho focada no Estado e suas instituições, sobretudo a polícia, ganhando o carinho de uns e a inimizade de outros.

Padilha sempre deixou claro nas diversas entrevistas que concedeu que seu interesse primordial em desenvolver uma produção se dava pela necessidade de contar alguma história, e que jamais fez filmes preocupado com premiações, como o Oscar. Sua carreira brilhante e seu estilo inovador o notabilizou como grande diretor. Após o sucesso arrebatador de Tropa de Elite (2007), estrelado por Wagner Moura, e do prêmio principal do Festival de Cinema de Berlim (Urso de Ouro), em 2008, Padilha alcançou o mercado hollywoodiano, muito pelas portas que foram abertas após as boas marcas atingidas e, principalmente, pelas ameaças sofridas, quando se propôs a trabalhar temas obscuros da sociedade brasileira.

Mudou-se então para Los Angeles com sua família, levando na bagagem muitos prêmios e inúmeras indicações por, dentre outros, dois tropas de elite bem-sucedidos e um espetacular Ônibus 174 (2002), considerado por muitos a sua verdadeira obra-prima.

Há exatos 4 anos, em entrevista cedida ao programa "De Frente com Gabi", transmitido pelo SBT, revelou que sentou com a alta cúpula da MGM e lhe deram algumas opções de filmes para dirigir, muitos deles seriam refilmagens. Entretanto, observou na parte de trás do catálogo um título que não estava sendo oferecido: RoboCop. Pediu imediatamente para dirigir o longa, argumentando que discutiria na trama a utilização de drones militares pelo governo norte-americano. Pouco tempo depois, uma ligação que confirmava: eles fariam um novo RoboCop com a assinatura de Padilha, e custaria 130 milhões de dólares ao estúdio. Para se ter uma ideia da responsabilidade, o primeiro (e o mais aclamado), lançado em 1987, custou apenas 13 milhões.

O diretor fez o filme. Com elenco recheado de grandes estrelas, como Gary Oldman, Michael Keaton e Samuel L. Jackson, e com a pressão do retorno financeiro pelo alto investimento, José Padilha criou um longa com a sua marca. Embora controverso, RoboCop (2014) foi divisor de águas ao aprofundar as relações entre homem e máquina, e descortinar a discussão do uso de tecnologias aprimoradas na defesa ou invasão de territórios, transformando a configuração geopolítica mundial.

Seu talento ainda lhe rendeu um forte poder criativo em Narcos, produzido e lançado pela Netflix em 2015, série norte-americana que retrata a propagação da cocaína nos Estados Unidos sob a liderança de Pablo Escobar. Agora, José Padilha novamente se apresenta numa trama que envolve outro evento policial de grande proporção, uma densa investigação baseada na Operação Lava Jato: O Mecanismo, que estreia em 23 de março.

É indiscutível sua qualidade cinematográfica. José Padilha também é um leitor rigoroso, o que faz de seus filmes mega-arenas para a exposição de questões sociopolíticas profundas. Talvez seja discutível para alguns a sua versatilidade. Será que a temática policial vai esgotar sua capacidade criativa? No mais, O Mecanismo (2018) parece revigorante ao diretor que, tudo indica, ainda tem muito o que falar do Brasil.
  
O que você acha da obra de José Padilha?

Até breve!

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