21 de Julho de 2018

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Wanderson Gomes

Ciências Sociais (graduação) e sociologia (mestrado)

Wanderson Gomes | wandersonjfgomes@hotmail.com

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15/03/2018

Hoje não é dia de cinema

Horas antes de receber a notícia do assassinato da vereadora Marielle Franco, do PSOL, lembro de abrir uma matéria que dizia "Brasil volta a ter diretora negra em cartaz nos cinemas após 34 anos", se referindo ao documentário O Caso do Homem Errado (2017), de Camila Moraes. A última vez que isso aconteceu foi com o filme de ficção Amor Maldito (1984), de Adélia Sampaio, a primeira cineasta negra do Brasil.

Algum tempo depois, a notícia: Marielle Franco, mulher negra de 38 anos, havia sido executada no bairro do Estácio, após retornar de um evento na Lapa, Rio de Janeiro, intitulado "Jovens Negras Movendo as Estruturas". Anderson Pedro Gomes, motorista, também foi morto. A militante (e uma das vereadoras mais votadas do Rio, em 2016) era socióloga e mestra em Administração Pública. Sua dissertação teve como título "UPP: a redução da favela em três letras". Nascida na Favela da Maré, Marielle se notabilizou pelas constantes denúncias contra abusos policiais. Era uma notável ativista dos direitos humanos. Um dia antes de seu assassinato, a vereadora havia denunciado no Twitter a ação da PM na região do Irajá, na comunidade do Acari. "Quantos mais vão precisar morrer para que essa guerra acabe?", disse.

Nos alegramos pelas conquistas, como no caso de Camila Moraes, que lançou um documentário que tem por temática central justamente o abuso da força policial. Mas a tristeza, indignação e ódio são igualmente presentes em momentos de tamanha barbárie, como o ocorrido ontem (14/03). É difícil explicar, escrever. Ao menos, o coração se aquece, pois Marielle não foi silenciada. Neste momento, milhares gritam suas dores e sustentam as bandeiras erguidas pela vereadora em muitos atos que ocorrem no país.

Por essas e outras, peço aos leitores e leitoras deste blog um instante de reflexão. Não estamos tratando das mortes banais e ficcionais do cinema, mas da pura e difícil realidade que nos arranca alguém que atuava incansavelmente pelos direitos daqueles descartados aos olhos do Estado. Hoje não é dia de cinema. Hoje é dia de encarar a realidade. Dura realidade.

#MariellePresente

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